Impassivelmente circular

De vez em quando a gente flutua bem no centro da incerteza. Nada faz total e completo sentido, faltam as soluções imediatas para as perguntas, o passado soa utópico, o futuro pretensioso e pessimista. Quando não se tem nem mais ideia do que deve acontecer, você sente as extremidades do seu corpo formigarem, as entranhas se contorcerem e aquela velha sensação de ansiedade que consome de dentro para fora volta a te dominar. Engolir em seco e debater consigo mesmo o que está acontecendo com você não adianta. É daí que muitas vezes surge a paranoia individual. Você sabe que algo está errado, mas não sabe como resolver e volta para aquela crise de insuficiência crônica e insatisfação que é tão bem conhecida. Todos querem dominar e saber de tudo; porém, no íntimo lateja a insegurança e o sentimento de impotência dentro de sua própria vida. Muitas vezes é preciso ser como um telespectador onisciente: perceber as situações, ler os ambientes, compreender os diálogos, e tentar tirar uma conclusão plausível baseando não só em si mesmo mas no todo, que diversas vezes entrega até mais do que o próprio consciente.
Quando nos sentimos perdidos, busca-se apoio na certeza. E é preciso que ela exista, não importa no que ou em quem. Se ela nos falta, o resto desanda. Sempre temos que acreditar em alguma coisa. É assim que continuamos sãos. É assim que terminamos nossos desafios. É assim que encontramos a nós mesmos.

O Dia Que Júpiter Encontrou Saturno

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.

Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.

Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.

E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou "every day, every way is getting better and better". Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.

(Silêncio)

-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?

(Silêncio)

-Você tomou alguma coisa?
-O quê?
-Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
-Não tomei nada. Não tomo mais nada.
-Nem eu. Já tomei tudo.
-Tudo?
-Cogumelos têm parte com o diabo.
-O ópio aperfeiçoa o real
-Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.

(Silêncio)

-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?
-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.

(Silêncio)

-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Eu sabia também.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.

(Silêncio)

-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.

(Silêncio)

-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.

(Silêncio)

-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.

(Silêncio)

-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos?
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.

(Silêncio)

-Me beija.
-Te beijo.

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz.

Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.

Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.

Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-sena janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.

De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.



- Morangos Mofados; Caio

Insatisfação

Sofro de insatisfação crônica. Nada nem ninguém agrada o suficiente, e se o faz é por pouco tempo. Em algumas semanas ou quem sabe dias eu me canso das coisas, não me encantam mais, não atendem as minhas crescentes expectativas e eu sinto vontade de jogar tudo fora e começar de novo. A única coisa que eu tenho decência de fazer é não demonstrar ou contar para as pessoas, já que o que pra mim pode soar inofensivo, facilmente poderia machucar. Na verdade, por eu estar tão insatisfeita - nunca, jamais, confunda com ingratidão -, mesmo que não tenha feito nada, o tal ato por si só me deixa insana. Por que não fez nada se podia ter feito? Só que eu sei que não posso esperar de ninguém o que nem mesmo eu poderia garantir. Eu não faço quase nada que não siga meus próprios interesses, como esperar algo diferente dos que estão ao meu redor? Vivemos numa sociedade que se engole, cada um alimentando seu próprio ego, distúrbios e complexos mal resolvidos, sobrepondo-os, tentando massificar e dominar o ambiente, assim como os que fazem parte dele.
Fico um dia sozinha e já mudei cem por cento de ideia em relação a tudo. Tudo mesmo. O que eu acho de você, o que eu acho de mim, o que eu deveria fazer, e o que eu deveria fazer em relação a você. Mesmo que não tenha havido nada além de silêncio. Por minha parte ou pela sua.
Pra falar a verdade as relações humanas me apavoram. Elas são excruciantes em demasia, inflam nossas ansiedades e nos fazem querer mais do que podemos exigir, e a hipocrisia acaba consumindo tudo e deixando só as cinzas no final.
Quem vai querer uma dessas? Quem vai querer passar por isso? Pra que tanto tormento, tanta irresolução? Os problemas começam a se misturar e você não consegue distinguir as cores, as tonalidades se confundem e só resta o sentimento de caos. E ele move o mundo. Aproveita-se do drama e cresce, explode, espalha-se.
Eu sou a favor do caos.
Desde que eu o instaure...

30 day challenge

Eternidade Compulsiva

Sempre considerei as pessoas, em sua grande maioria, substituíveis. Isso normalmente desperta asco.Todos genuinamente entretidos com suas ideias duradouras e seus "para sempre".  Não consigo pensar em absolutamente nada que seja para sempre. Nada mesmo. A questão é que tudo isso é expectativa de comportamento social. Achamos que nossos relacionamentos com as pessoas vão durar a vida inteira, que a família estará sempre ao nosso lado pra dar apoio, que o que você tem com sua "amiiiiga" é mais forte que a estrutura de um prédio. Mas quem falou? Como é que você sabe? Não sei de onde surgiu essa ideia de que tudo é único e maravilhoso.
Recusam-se a perceber que com a passagem dos anos, não só o cenário muda, mas os personagens também. Uma a cada quatrocentas pessoas vai continuar com você com o decorrer do tempo. E isso é algo positivo. Fica quem tem que ficar, quem quer e quem pode.
Por mais horrível que isso soe, já morei em oito cidades e mal sinto falta das pessoas que conheci. Não porque elas significaram pouco pra mim, muito pelo contrário, foram essenciais na minha vida, no momento em que fizeram parte dela. Mas passou. A vida muda, as estações do ano trocam, e as coisas vão perdendo sua importância. Pra ser sincera, tenho mais saudade de gente que jogou RPG comigo por dois anos do que de quem passava o recreio comigo na quarta série.
Justamente por pensar assim, não me incomodo de retirar pessoas da minha vida por não se ajustarem mais ao contexto. Falando desse jeito, parece que sou uma maníaca manipuladora robótica que não se importa com nada nem com ninguém. Eu até gostaria de confirmar isso por ser simplesmente mais fácil, quem tem medo de ser trocado ou do jeito que eu analiso as pessoas, pode sair do meu caminho. Quem esteve comigo (e que ainda está) é diferente dos outros. Marcam com traços fundos onde quer que passem. E é por isso que são meus amigos. Porque amigo não é coleguinha de primeiro ano que tomou umas pingas com você. Amigo não é gente que você conheceu em uma viagem ano passado e viu duas vezes desde então. Não é o cara que te passou cola no Ensino Médio. Amigo é amigo. E me poupem. Vocês não me amam pra sempre, nem se amam pra sempre. Tenham dó de vocês mesmos.

Um salve para as minhas exceções que me fazem acreditar que ainda é possível se relacionar e sentir plenitude e reciprocidade.

A incapacidade de se importar

Cobrança é o que mais se vê por aqui. As pessoas estabelecem um padrão de comportamento e exigem que você cumpra o que elas acham correto. Sendo assim, julgam-se no direito de requisitar o que não está em sua alçada. Nunca foi tão frequente a demanda por atenção, carinho, amor, e por aí vai. Com essa história toda, fico pensando: qual foi o momento, o momento mais errado de todos, em que uma pessoa sentiu e decidiu que poderia controlar as ações de outras? Desde quando expectativa de comportamento social virou motivo pra discussão?  Quem estabeleceu que não atingir ao esperado do próximo dá direito de infortunar a vida alheia e virar motivo pra tragédia?
Por mais hipócrita que eu seja, sei que não posso obrigar ninguém a fazer nada, muito menos a fazer o que eu não gostaria ou não faria se fosse eu. Chegamos em um ponto que o sistema está tão massacrante que dá preguiça só de pensar em sair de casa, e encontrar aquelas mesmas pessoas detestáveis do seu cotidiano. Não acho que estou errada em preferir evitar esse tipo de gente e ambiente. O maior direito (e eu sei que é chato falar isso, mas vou falar: GARANTIDO CONSTITUCIONALMENTE) é o da liberdade e o do livre-arbítrio. Se nem minha mãe me obriga a fazer o que eu não quero, o que faz outra pessoa pensar (que nem é minha mãe) que pode regular, controlar e decidir o que eu supostamente preciso fazer?
O simples fato de discordar e querer manter seu ponto de vista (e agir a partir dele) virou desculpa para ser rotulado como uma pessoa que não se importa com nada nem ninguém. Se não querer fazer o que os outros exigem de mim é ser egoísta e narcisista, que assim seja. Os limites estão sendo extrapolados, a sociedade massificada e caindo num conceito esdrúxulo. Minhas sinceras desculpas, mas me recuso a fazer parte disso. Let the flames begin.

Você

Senti saudades de você. Rápida, passageira, mas ainda assim saudade. Li algumas cartas, alguns poemas, uns causos meio bobos, você costumava rir de mim quando eu ligava demais pras coisas. Jogava uma cantada idiota que eu achava só um pouco de graça, e perguntava o que eu tinha feito errado no dia, se algum coleguinha tinha faltado com o respeito comigo ou se eu estava caindo na tentação. Eu pensava em umas coisas estranhas; como o formato do seu queixo, a maneira que o seu cabelo caía sobre os olhos e você tinha que sacudir igual um cachorro pra poder enxergar, o jeito que você devia falar as coisas, e o que você ia fazer quando parássemos de conversar.
Tinha algo diferente, a maneira que você interpretava e explicitava fatos, seu posicionamento e a demonstração da sua opinião. Eu me atraio por coisas diferentes que as pessoas normais, eu valorizo a cabeça mais do que quase qualquer outro aspecto, e você tinha "a" mente, e pior: me entendia. Quantas pessoas eu conheço que me compreendem? Construí sobre você a imagem do ideal, as características que eu devia procurar em todo mundo pra começo de conversa.
E o tempo foi passando, sem nunca ficarmos parados na rotina. Você me surpreendendo, eu achando bom, e nós dois levamos as coisas. Contanto, sou tão instável... Eu mudo tanto de ideia, de conceito, de decisão, e você mesmo lidando com isso, ficou pra trás. No final das contas, eu deixo todo mundo pra trás, e fico sozinha. Eu não consigo conviver com ninguém, nem com você. Não fui feita pra isso, você sabe. Você me conhece(cia?).
E agora, depois desses anos, eu descobri que você não existe. E além de não existir, foi a minha materialização da pessoa humana, e meu melhor amigo até então. Eu já era velha quando te inventei, e mesmo que não doa, ainda arde. Sabe ardência? Então. Eu sinto arder. Eu sinto coçar no fundo das minhas confusões, como aquela coisa que pulsa no fundo da gaveta, e quando procuramos alguma coisa perdida, achamos ela. A gente nunca supera essas coisas completamente. Mas sabe qual é o problema? Você sou eu. E isso me mata.

É, eu gosto muito de ti.

"Olha, fique em silêncio. Eu gosto do teu silêncio. Mas também gosto de tuas palavras - acredite. Mas não vim aqui para te falar de ruídos - ou não - , estou aqui para te falar de céu, mar, estrelas e tapioca - como naquele dia, lembra? Ontem, por incrível que pareça, todos os lugares que pisei eu te procurei. Teus rastros ficaram por lá. O balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti."

Homens > mulheres

Mulheres são insuportáveis. E eu falo sério. Na verdade, eu não sei porque uma pessoa escolhe conviver com uma. Salvo exceções, claro, ouso afirmar que está pra nascer alguma coisa tão complicado quanto.
Adoram reclamar, falam sem ter certeza, formulam opiniões até quando ninguém está interessado, passam pelo menos 1/4 do mês mal-humoradas, quando não é mais tempo, gastam muito tempo com futilidade, são mais impressionáveis do que homens, preocupam mais com aparência, são desobedientes e muitas vezes mesquinhas, irritam-se com facilidade, mudam de ideia quando não é cabível, adquirem manias facilmente, detestam ouvir "não", várias não têm nada na cabeça e nem sabem conversar, acham graça em coisas idiotas e não acham graça em coisas verdadeiramente hilárias, costumam ser escandalosas, falar alto e não saber disfarçar, não sabem contar piadas, preocupam mais com o cabelo do que com a avó, são interesseiras, são grudentas ou insensíveis, não sabem a hora de ficarem caladas, tentam impor opiniões e convencer a todos, ouvem músicas melosas e assistem comédia romântica. Mas o pior de tudo é como funciona a cabeça da mulher, já que nem ela mesma sabe explicar o que está acontecendo.
Eu admiro muito quem consegue conviver comigo. Não sou tudo que eu descrevi, fiz um estereótipo qualquer, mas consigo ser ainda pior.
Bom mesmo é conviver com homem! Desde que você não tenha que dividir o banheiro. Homens sabem a hora de falar, conseguem desenvolver linhas de pensamento com maior facilidade, matam baratas, trocam lâmpadas, carregam as sacolas de compras e as malas, arrumam o porta-malas, têm mais paciência, não debocham de tudo, não importam com seu corte de cabelo, valorizam as coisas certas e ignoram o desnecessário, não pedem um mapa detalhado do seu dia, têm menos ciúme e sabem relevar mais as coisas, não passam maquiagem e nem demoram mais de uma hora pra arrumar e trocar de roupa, têm os melhores conselhos do mundo, não chegam atrasados nos lugares, cumprem combinados, pagam a conta, riem com mais facilidade, sabem explicar as coisas melhor, têm melhores posições na empresa, têm melhor gosto musical e para filmes, sempre têm algo interessante a acrescentar, não lembram da roupa que você usou semana passada, não choram - e se choram não fazem escândalo nem deixam todo mundo ver -, nem fazem melodrama, não têm vontade de discutir o relacionamento e quando fazem é muito mais prático e direto, vivem pelo pragmatismo, não são prolixos, sabem a hora de parar uma divagação, não criam ambientes constrangedores, conseguem manter o ritmo de uma conversa, usam perfumes melhores - até porque perfume masculino já foi desenvolvido pra ser melhor -, não são indecisos, não são sensíveis, não enchem - tanto - o saco, são sinceros, não dão palpite sobre a cor do seu cabelo a não ser que você os obrigue, ficam um mês longe de você e quando voltam conseguem deixar tudo agradável como sempre foi, vão conseguir fazer algum comentário engraçado por mais tensa que seja a situação, sabem abraçar melhor, não são inconvenientes, consolam melhor, comem qualquer coisa e não ficam fazendo comentários desagradáveis sobre isso, têm bom humor pra falar que são escrotos, feios e chatos, mesmo quando não são, e conseguem se manter firmes em relação às coisas nos piores casos.
E que eu jamais tenha que conviver somente com mulheres!
Um brinde aos homens que toleram, convivem e amam as mulheres. Eu sei que é difícil.

Vocação

Desde as minhas primeiras semanas estudando Direito, ficou claro que muitos juristas não têm vergonha nenhuma de falar que cursaram pelo dinheiro, que não querem mudar o mundo, só garantir o salário no final do mês. Quando eu estava decidindo qual carreira eu ia seguir, fiquei em dúvida (por pouquíssimo tempo) entre Jornalismo e Direito. Se eu fosse cursar Jornalismo era pra tentar seguir algo mais abstrato, poder viver de uma coisa que eu realmente aprecio e levo como hobby. Depois de procurar saber, eu percebi que o mercado de trabalho pra esse curso é complicado demais, e agora já nem é mais preciso diploma pra exercer.
Enquanto desistia de Jornalismo, escolhi o Direito. Quase ninguém quer saber porquê, já que quem não sabe o que quer da vida muitas vezes faz esse curso. Eu não escolhi por acaso. Não tirei no tarô o que eu ia seguir pelo resto da vida, e eu me sinto um pouco ofendida de ver que professores desistem de aptidão e de vontade de exercer alguma profissão em específico só pelo campo mais amplo de trabalho que eu conheço.
Agora, no começo do segundo período, as razões me saltam aos olhos. Para querer ser jurista, você precisa estar insatisfeito. Muito insatisfeito. Com as pessoas, com as leis, com as vontades, com a passividade, com a coerção do Estado, com a indiferença, consigo mesmo. Longe de mim querer mudar o mundo, não quero, e não deixo de querer. Sei que não está sob a minha alçada, meu objetivo nunca foi esse. Mas tem uma coisa que eu quero fazer, e eu sei que a oportunidade está paradinha na minha mão: eu quero corrigir o que há de errado. Eu quero ver os erros, realçá-los, passar marca-texto, gritá-los, apontar o dedo na cara dos outros e consertar tudo. Eu quero que todos vejam o que precisa ser mudado. Eu quero sentir que eu fiz a diferença na minha própria vida, preciso ver que ainda tem gente procurando fazer o que está certo. Eu me alimento do que é certo e do que é errado, eu vivo pra isso.
Então se um dia você finalmente vier me perguntar porque diabos eu escolhi Direito, e não Letras, Arquitetura, Psicologia, Publicidade ou Engenharia Mecatrônica, saiba que é porque eu tenho a vocação. Eu tenho o poder de transformar as coisas, e o farei.


Mas lembre-se: muitas vezes os fins justificam os meios.
And tonight, we dine in hell.

Catarse

Depois de séculos de lenga-lenga para descobrir qual a finalidade do homem e sua "missão de vida", ou como queira chamar, a que eu mais concordo é a busca pela felicidade. Tudo na vida rege esse simples fato, o resto é consequência. Porém, sendo inconcreta como só ela, ficamos navegando por aí sem saber direito o que fazer. Cada um tem uma forma de procurar. Alguns pensam que ela está disponível nos relacionamentos mundanos, outros na arte, outros no poder, nos livros, na fé. Não importa. Cada qual tem o seu próprio meio.
Sendo assim, senti vontade de descrever um dia perfeito! Um dia que exalasse felicidade.
Pra começar bem, eu teria que ter dormido bem. E em vez de acordar cinco da tarde, o ideal seria naturalmente despertar lá pras dez da manhã. O ponto perfeito entre não perder a manhã e não perder a noite de sono. Levantar sem sol batendo no rosto, sem barulhos, só quietude. Sair do quarto e ver meu irmão dormindo de cara boa, entretido nos próprios sonhos; mas minha mãe e meu pai acordados. Minha mãe vendo TV na cama e me alertando que meu pai foi na padaria, e por algum milagre, comprou meu biscoito favorito. Meu pai mexendo no twitter dele com disposição, enquanto o seriado histórico está pausado bem em frente ao sofá. Volto pro meu quarto depois de comer, deito na cama com preguiça, e fico pensando em como terminarei de manejar o dia. Pego o meu celular, tem duas mensagens, uma sobre o que vou fazer hoje, outra sobre ontem, uma risada, uma frase solta e engraçada, alguma coisa que me deixe com um tipo de excitamento diferente, aquele de ter vivido algo legal. Respondo a mensagem, ligo o computador, mexo um pouco, espero até o almoço. Almoço, tomo banho, vou encontrar com os meninos, ficamos com preguiça de todas as coisas do mundo, assistimos um filme, rimos da cara uns dos outros, sentamos em algum lugar e conversamos por longas horas, que parecem passar de um modo inconveniente. Chega a um momento de fim de tarde onde cada um precise ir pro seu lado, e me dá uma agonia, uma vontade de continuar lá e não deixar ninguém ir embora pra onde quer que fosse.
Chegar em casa, conversar um pouco com a minha mãe, ouvir meu pai fazendo alguma piadinha que ele mesmo inventou, encher o saco do meu irmão, ser jogada na cama e tentar fugir, simular uma briga - que provavelmente vai deixar algum hematoma no meu braço - e ir pro banho. Arrumar e terminar ao mesmo tempo que as meninas - o que até hoje não aconteceu, se não me engano -, não ter que inventar nenhuma história, encontrar com elas e sair. Ter uma noite foda, não usar o telefone para fins indevidos, fazer boas escolhas. Voltar pra casa, a porta dos meus pais fechada, a luz do quarto do meu irmão apagada, sem sustos. Ligar o computador e desistir de usar ele antes mesmo de dar tempo, guardar as coisas direitinho, tirar a lente e pular na cama. Olhar o celular, e ver que recebi uma mensagem de tardinha, algum comentário genial e sórdido que só meus amigos podem produzir. E ir dormir, feliz. Leve.

É o meu sábado, meu dia ideal.

Efusivos

Voz grossa, concentração em agradar a vontade do maior número de pessoas ao mesmo tempo, cento e cinquenta camisas do time no armário, bermudão florido e cabeça vazia, inexplicável vontade de falar mais alto que os outros e por um tempo maior, audição automaticamente programada para detectar a primeira brecha de silêncio pra voltar a reclamar ou se gabar de alguma coisa, competição pra ver quem pega mais mulher em um menor período de tempo, bebedeira só pra postar em alguma rede social falando em como a noite ontem foi "insana", falta de noção e limites, vômito e maconha, desprezo pelas regras e pelo bom senso, lê dois livros por ano - obrigado pela escola, faculdade, vestibular -, escuta Nirvana e Red Hot pra entrosar, mas curte de verdade um samba de raiz, um pagodinho e um sertanejo apaixonado, cola nas provas de inglês e espanhol, mal sabe falar português, mas acha que isso não importa por causa do intercâmbio que ainda não consertou seus graves problemas de gramática, não queria fazer nenhum curso na faculdade, mas papai disse que não ia deixar um vexame desses acontecer na própria casa, tem um carro que só conseguiria comprar sozinho daqui uns 15 anos, mas já bateu ele quatro vezes. O plano de vida é seguir a carreira do pai e depois ficar com a herança, responde mal-educadamente ao vizinho, bate a porta de casa na hora de sair, fala com a empregada como se ela fosse um saco de lixo, larga a cueca no chão do banheiro,  implica com a opinião dos outros sem nem saber sobre o que está falando, entra no meio das conversas apenas pra intrometer, xinga os outros a troco de nada e acha super legal saber que o parceiro entrou numa briga ontem por causa de alguma "vagabunda". Escreve tudo abreviado e acha retardado quem faz questão de por acento e vírgula, tem um milhão novecentos e trinta e quatro melhores amigos/irmãos, mas não sabe o aniversário nem o nome da mãe de nenhum deles, passa mais tempo no clube e batendo racha do que pensando em qualquer coisa, sente profundo irritamento quando o silêncio dura mais que um minuto e o preenche com alguma frase ridícula que demorou uma semana pra pensar, namora uma menina que nem gosta muito, mas prefere ter alguém pra passar o cartão sempre que quiser. Um não está nem aí pro outro e ela dá pra todo mundo, mas a fama dele também não perdoa. Detesta a mãe e não vê a hora de nunca mais ver a cara dela, adora loira de silicone e mentalidade de criança, a cabeça com falta de conteúdo semelhante da própria. Boné na hora do almoço, arrota em reunião de família e acha engraçado, é grosso com o sobrinho e com o namorado da prima, tatuou uma caveira bem punk com umas chamas no braço e pensa em fechar a panturrilha. Seu gênero de filme favorito é ação e filmes de super-herói, mas não dispensa uma comédia com besteirol estilo American Pie e acha Jackass genial. Tem um brinquinho na orelha esquerda e morre de tanto malhar, as vezes toma alguns suplementos, "mas nada demais". Tá no curso errado, no bairro errado, na cidade errada e SEMPRE no local mais inapropriado possível. Não consegue tirar o nariz de qualquer discussão que apitar no seu radar de 150m, acha engraçadão a maioria dos quadros da MTV e adora criticar e elogiar os famosinhos da internet, dependendo do humor. Queria tocar guitarra, trocou pro baixo e acabou largando isso pra lá, fala que não tem medo de nada, mas se borra só de pensar na possibilidade de ter que trabalhar e fazer alguma algo séria na vida, morre de preguiça de fazer qualquer coisa, prova ser imprestável com a maior facilidade do mundo.

Só um conselho: morre que melhora.

Insensibilidade

Ninguém jamais está satisfeito com nada. Se não reclamam da falta, reclamam do excesso. Vivemos em uma sociedade extremamente descontente com qualquer coisa, demandando todo o tempo mais informação, mais conteúdo, mais confusão.
Tenho a impressão que as pessoas literalmente param o que quer que seja pra procurar material e criticar. As piadas já estão na ponta da língua, ensaiadas em frente ao espelho, procurando pela menor das oportunidades.
Mas existem aqueles mais nervosinhos. Os que não precisam se preocupar em entrosar ou saber as piadinhas que todo mundo sabe, porque simplesmente não faz diferença. Eles não se importam. Simplesmente flui.
Como não podia deixar de ser, os eternos insatisfeitos não conseguem lidar com quem está pouco se fodendo pras banalidades, para os problemas fúteis e supérfluos que nos são impostos a todo momento. E em vez de serem entendidos como pessoas que tentam não supervalorizar besteiras, a única imagem que conseguem é o de insensíveis, grossos, arrogantes, sem educação, sem coração, e a lista não tem fim. O problema é que todos exigem  - com uma sede insaciável - uma quantia exagerada de carinho e atenção, sem retribuir e pior ainda, sem merecer. Quem ordena ou cobra uma coisa dessas não tem direito de pedir nada pra ninguém!
Gente ordinária supre as necessidades de gente ordinária. EU preciso de mais do que isso. Prefiro conhecer e gostar de uma pessoa só no mundo inteiro do que ser igual as pessoas fúteis que eu vejo em cada esquina.
Valha o que você requisita.

Paciência é uma virtude

Eu sou uma pessoa insanamente ansiosa. Olho pro relógio a cada 3 minutos, de vez em quando até estabeleço um padrão enquanto verifico que horas são, só pra você ter certeza do quanto me incomoda ter que esperar. E quando você é tão ansiosa assim, não há controle o suficiente pra tomar a medida perfeita, porque perfeição leva tempo, e é impossível esperar.
Essa ansiedade traz resultados imediatos: nervosismo ao aguardar pelo que quer que seja, taquicardia, pernas que se movem sozinhas, respostas efusivas e desatentas - ou meio grosseiras - e muita dor de cabeça.
Quando você não tem paciência, é bem mais fácil ficar irritado com coisas que provavelmente não afetariam mais ninguém, como o tempo que seu irmão demora pra sair do chuveiro, os quinze minutos de atraso do motorista, os quarenta minutos na fila do banco, o taxista dando voltas descaradas com bandeirinha 3, gente folgada, a velhinha que decide pagar a conta da padaria com moedas de dez centavos - e perde a conta duas vezes -, a aplicadora de prova que decide não aparecer até o horário estar quase no fim, o tempo que seu namorado gasta pra responder sua mensagem, ou sua amiga pra confirmar se vai ou não almoçar com você, seu pai enrolando pra te dar dinheiro, fazendo hora com a sua cara, ou a demora que sua mãe arruma para chegar no segundo portão do prédio. "Ah, mas se fosse eu". Mas bem, não é. E uma das coisas mais incontroláveis de todas é o tempo, temos que lidar com ele e não há nada a se fazer.
E impaciente como poucos, não me resta tolerância para comentários inoportunos. É praticamente imediato. É aí que mora o erro e o perigo. Por isso eu afirmo: a vida é mais fácil para os que conseguem esperar. E se você é tranquilo e não liga pra nada, por favor, passe-me a receita do bolo. Porque eu cheguei no meu limite.

Ócio

30 dias (ou mais, dependendo da sua sorte) pra fazer qualquer coisa que vier a cabeça. Eu chamo isso de férias, mas de vez em quando o nome mais apropriado é ócio.Grandes pensadores foram convictos de que só os pobres de espírito deveriam se subjugar ao trabalho braçal, e que os fundamentais pensamentos e ideologias só poderiam surgir no tempo vago.
As vezes somos acometidos de outro tipo de cansaço, e em vez de dor física, precisamos mesmo é de um lugar pra arear a cabeça, colocar os pensamentos em ordem, fazer algumas decisões e só depois voltar a ativa.
Sinceramente, uma das coisas mais raras e preciosas que existem é não ter nenhuma preocupação nem ocupação, só um tempo vago e aberto às possibilidades.
É disso que a gente precisa. Espaço e calma para preencher os questionamentos, com uma ligeira dose de preguiça, pra ficar imóvel, analisando e sentindo.
Não costuma dar errado.

Só.

Seus olhos procuravam por ele no meio de tantas outras pessoas, uma brisa incômoda atrapalhava sua visão, jogando seus cabelos cor de ébano por todo o rosto enquanto andava. Já não tinha certeza se devia estar ali, e ver aquelas pessoas felizes, despreocupadas e ocupadas perto da grama tão verde e bem cuidada fazia com que ela se arrependesse de ter vindo. Girou em seus calcanhares e fez como se fosse sair, procurando o lugar mais longe possível. Ele estava atrás dela, segurou-a pelo braço e perguntou com aquele sorriso tranquilo onde ela iria.
- Achei que você não vinha.
Ele inclinou a cabeça pra trás e deu uma risada, sacudindo a cabeça devagar.
- Claro que vinha, achei que ia te ver mais perto do lago, tenho te procurado faz uns vinte minutos.
- Ah.
- Vem, o combinado não foi esse.
Maldito combinado, maldita vodka, maldito horário. Ele a havia convencido em situação por demasia desfavorável. Suspirou baixinho e deixou ser levada até onde quer que fosse.
Passaram para o lado oposto do condomínio, subiram duas levas de escada e chegaram em uma torrezinha. Quando estava perdendo a paciência, ele começou a explicar:
- Eu costumava vir aqui com a minha mãe uns anos atrás, quando eu era moleque. Ela falava que se eu ficasse bem quieto deitado na parte mais alta, olhando as estrelas, eu teria boas ideias. E pra falar a verdade, todas as grandes decisões da minha vida foram tomadas aqui.
Olhou pro rapaz com olhos interessados, e caminhou até a rampa que levava ao local mencionado.
- É bem bonito.
- Sei que sou.
Ignorou-o com desdém e deitou no chão conforme fora dito. Podia começar a fazer ligações de constelações, e sentiu uma pressão forte no peito. Devia ser difícil pra ele voltar até lá com tantas lembranças da mãe. Não conseguiu pensar em nada confortante pra dizer, e enquanto isso ele deitou do seu lado e voltou a falar.
- Essa é a minha favorita. Tem um nome engraçado. Apus. Mas em português é Ave do Paraíso.
Instaurou-se o silêncio, mas não era desconfortável. Aquele silêncio gostoso de duas pessoas que não precisam buscar desesperadamente por palavras só pra preencher o vazio.
- Então, te trouxe aqui porque não vou poder mais vir, e só consegui pensar em você pra ficar com esse lugar. Sei que é meio bobo, mas acho que fará bom uso.
- Por que não vai poder vir?
Seus olhos se enalteceram pelo interesse da mulher e respondeu com uma pitada de indiferença que simplesmente não poderia.
Levantaram-se, despediram-se, seguiram suas vidas. De vez em quando ela voltava pra lá, inquieta com o que o rapaz dissera, e um dia naquele mesmo lugar decidiu que iria procurar saber. Mas o telefone não atendia, as mensagens não eram respondidas. Ele fora embora, mas tinha deixado a lembrança, e aquele lugar. E era bonito, muito bonito.

Ele & Ela

Ela é fria demais, seca demais, nervosa demais. Implica com tudo que ele fala, não aceita escutar nem uma coisinha sem contestar. Discute com todo mundo por causa de tudo, não considera a opinião dos outros, fala sem ter certeza, mas no final das contas está sempre certa. E se não estiver, vai continuar achando que é assim.
Ele não liga pra nada, tem uma resposta pronta pra tudo, acha que pode fazer qualquer um mudar de ideia sobre qualquer coisa. Não tem nenhum medo de dizer não, especialmente pra ela, e acha que cara feia "é fome ou falta de homem". Debocha das incertezas alheias, dá opinião sobre qualquer assunto e tem uma teoria muito consistente sobre qualquer banalidade.
Ela detesta as pessoas as pessoas de modo geral, ele acha que elas são estupidamente fascinantes. Ela acha que os mistérios da vida serão resolvidos um dia, ele tem certeza que são insolucionáveis. Ela vê inconsistência em todas as pessoas, procura pelo começo dos erros e não consegue deixar de criticar, mesmo que em silêncio. Ele acredita nas pessoas. Crê que ainda existem mais pessoas boas que ruins, que as coisas se acertam com o tempo, que as coisas mudam se tiverem que mudar.
Ele sabe que as coisas são mais complicadas do que parecem, que nem todo mundo merece atenção e comprometimento, que a melhor saída pras dúvidas vêm de um questionamento racional. Ela sabe que o homem sofre influência das inclinações, que não existe sub-consciente, que não somos animais com instinto, que nossas escolhas são delimitadas por nós mesmos, que o caráter quase não é passível de mudança, que nós somos formadores do nosso destino. Ele acha que ela se preocupa demais com o que não devia, que ninguém merece tanta importância, que as coisas são ajustáveis.
Ela vê tonalidades, ele vê o espectro de cores. Ele acredita no amor, na beleza simples das coisas, nas inúmeras possibilidades da vida. Ela acredita nela mesma, na busca incessante pela felicidade, e na abdicação de direitos pelo bem-estar comum. Ela acha que algumas pessoas são melhores que outras, ele acha que isso é uma questão de opinião.
Ela é convicta em verdades absolutas, ele tem certeza que qualquer coisa é indagável.
Eles não acreditam em forças superiores, em mitos, estrelas, assombração, espíritos, ressurreição. Só no orgulho, na consistência das coisas, nas memórias, nas mudanças que nós provocamos, na verdade implícita, e na falta de algo maior do que suas próprias inteligências.
Separados, talvez ela seja uma tola aspiração à racionalidade, e ele alguém com mania de grandeza, que acredita demais nas coisas. Mas juntos, não sei, tem alguma coisa ali...